Arquivo da categoria: Diário de viagem

das Wandern

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Ah, que saudades me deu vendo essa foto …

Saudades daqueles passeios que eu fazia nas florestas próximas ao Studentenwohnheim onde morei em Tübingen, depois nos parques de Mannheim, onde também morei, ou em outras florestas, em bosques encontrados em passeios por cidades vizinhas …

Saudades daquela sensação maravilhosa, do silêncio, do ruído do pisar nas folhas, do frescor ou do gelo entre as árvores … muitas vezes sozinha, algumas acompanhada de amigos, amigas, turmas grandes ou pequenas.

Especial mesmo era quando caminhava só, aliás, não só, mas só comigo mesma. Sempre gostei da minha companhia, até em situações em que desejei ter alguém do meu lado, além de mim.

Eram momentos de conversa íntima comigo, reflexões, dúvidas, ou só de ouvir a minha respiração. De sentir como meu corpo se comportava.

Quase sempre recolhia  folhas do chão no outono, levava-as para o meu quarto, escolhia livros para colocá-las dentro deles, onde elas iriam secar e se eternizar.

Ainda hoje acontece de eu abrir um livro daquela época e topar com uma folha. Amarela, marrom, vermelha, laranja …

Saudade … saudade boa, com bons sentimentos, boas recordações.

Sou grata e feliz por ter vivido isso.

Herbstblätter

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der neue Job

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Amigos brasileiros já trabalhavam num restaurante um pouco fora de Tübingen, onde relatavam ser muito bom. Ficaram de conversar com o gerente sobre mim, afinal, eu estava desempregada e precisava urgente de dinheiro, pois as economias tinham acabado durante o meu período pós-operatório-engessada.

O ambiente nesse restaurante era muito, muito melhor que no grego. Eu obviamente me sentia bem mais à vontade, já que estava no meio de estudantes e o chef, embora não fosse estudante, era um cara muito legal, alemão, jovem, descolado, adorava a gente (a maioria dos estudantes que trabalhavam lá eram brasileiros).

Outros alemães também trabalhavam lá. Acabei sendo “contratada” para trabalhar 3 dias por semana, que dava 20 horas semanais, o permitido para uma estudante.

Apesar de já ter tido um job parecido no restaurante italiano e no grego, tinha que aprender coisas novas da cozinha deles. Sem problema. Aprender é comigo mesmo, ainda mais em caso de necessidade, né? =)

Nas primeiras semanas trabalhei de bota para manter uma certa estabilidade do tornozelo. Tentava não escorregar no vai e vem da correria, mas às vezes dava uma derrapada no chão molhado … ai …

Schild rutschen

 

das Glatteis

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Saindo do pronto socorro, me dirigi ao carro do meu amigo e fomos para a minha república. Andei de braços dados com ele, porque a insegurança era grande! Ainda  mais no inverno, aquele chão escorregadio …

Voltei a trabalhar porque não tinha mais como viver de dinheiro emprestado. Lá, se eu não trabalhava, também não ganhava! Mas não voltei mais naquele restaurante grego, já que eu tinha pedido demissão (para lembrar, procure os posts “Der neue Job” e “Die Treppe – eine komplizierte Beziehung”). Comecei a trabalhar num restaurante alemão que empregava estudantes. Três dias por semana, e algum dia no fim de semana também. Trabalhava de bota porque tinha pavor de torcer o pé, que ainda estava muito sensível, além da perna estar fraquinha.

Apesar de todos os cuidados ao andar, lembro direitinho de um dia em que torci o pé andando pela rua … parei, chorei um monte apoiada numa parede qualquer e … continuei andando, fazer o quê …

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Endlich

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Finalmente chegara o dia de tirar o gesso. Que alívio seria tirar aquele peso!

Apreensiva cheguei ao hospital levada de carro por um amigo, que ficou me esperando. Entrei na sala, sentei na maca e quase morri de pavor ao ver aquela serra cortando o gesso, achando que aquilo se transformaria num filme de terror, em que a serra continua e corta a perna ao meio. Credoooo!

Claro que isso não aconteceu. Assim que a enfermeira tirou o gesso, o que vi foi uma perna bem fininha, músculos muito atrofiados. Quando levantei a perna pra sair da maca, quase caí para trás, de tão leve que ela ficou de repente.

A sensação de caminhar sem as muletas era a de uma criança reaprendendo a andar: faltava o jeito, a ginga, o equilíbrio, o foco. Que sensação mais estranha!

Era inverno. Fazia muito frio. E um perigo maior me esperava lá fora: o gelo.

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Ein langweiliges Leben

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Bom, continuando a novela … não era todo dia (mesmo) que eu me encorajava a sair pra passear. Como já contei, tinha todo o trabalho de me vestir com aquela perna engessada, descer as escadas do prédio de muletas (principalmente os primeiros degraus da parte mais antiga, de madeira e tal). Por isso a minha vidinha de convalescente era bem monótona: dormir, ler, comer … só ficava mais animada quando um grupo de amigos chegava pra bater papo e contar os últimos babados. =D

Mas um dia pelo menos a comida foi bem especial! Uma das minhas irmãs estava passando um tempo na Alemanha, e num dos dias em que me visitou, fez um arroz ao forno que … nossa … sem palavras! Até hoje lembro desse dia, do arroz, desse mimo!

arroz-ao-forno

Ohne Drehkreuze

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Claro! Não me lembrava mais! Mas esse foi mais um dos estranhamentos nas primeiras vezes que andei de ônibus e de bonde na Alemanha. Sem catracas! A gente sente que tá faltando alguma coisa quando entra e … pode ir direto pelo corredor, sentar … nossa, que sensação legal =D

Mas foi vendo este vídeo que me lembrei dos meus primeiros episódios em transporte público lá.

E até uma grande aventura eu vivi numa das primeiras vezes que entrei num bonde … já leu essa historinha? Se já, relembre. Se não, dê uma olhada no post abaixo (“Die Narbe”):

https://frausantana.wordpress.com/?s=die+narbe

 

Das Klo

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E eis que a palavra Klobürste surge no meio de uma lição durante  uma aula. E eis que eu me lembro de mais uma historinha do meu tempo de Alemanha.

Logo no início, ainda em Owingen, fui convidada por uma família a ir a um clube. Não bem um clube; mais uma associação (Verein), com uma quadra de basquete, algumas salinhas, só. Nada a ver com os clubes que conheço de Jundiaí, minha cidade natal, onde éramos sócios da Esportiva.

Bom, mas o “evento” daquele dia no “clube” (na quadra, mais especificamente) era um simples Kaffee und Kuchen organizado pelas mulheres da cidade. Um evento singelo para arrecadar dinheiro para a realização de algum evento “de verdade”, digamos assim.

Num determinado momento, chegou a necessidade de ir ao banheiro. Ah, eu sabia dizer banheiro em alemão! “Entschuldigung, können Sie mir sagen, wo das Badezimmer ist?“, perguntei a um menino que passava ali perto (isso depois de tentar achar sozinha, porque eu ainda tinha muita vergonha de falar!). Bom, primeiro tratar o menino por Sie já seria digno de um comentário aqui, mas o foco é comentar sobre a palavra banheiro em alemão. Então vamos lá.

Tinha aprendido no Brasil somente a palavra Badezimmer pra banheiro, então foi essa mesma que eu usei. Tudo bem. Mas o menino me olhou com uma cara tipo “como assim, Badezimmer?”. Claro, meu objetivo não era me banhar, era só fazer o número 1! Portanto, podia ter usado a palavra Toilette. Maaasssss … o que o povo falava lá mesmo era Klo! “Darf ich aufs Klo?“. “Ich gehe mal schnell aufs Klo!“.

Agora, mais engraçado mesmo é a palavra Klobrille. “Óculos de vaso sanitário”! Que demais! =D

PS: Acredite se quiser, existe um bar em Berlim com esse nome … Klo … ah, esses alemães … sei não se eu entraria lá um dia …

Klo Kneipe

In der Sauna

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Ai ai ai … so ein heikles Thema … sauna na Alemanha … como sempre, tenho uma historinha pra contar.

Meu primeiro contato com a nudez germânica já contei aqui no post “Nackt!”. Mas houve outras ocasiões em que eu tive que me deparar com a naturalidade da nudez na Alemanha. Aliás, corrijo: eu tive que me deparar com todos aqueles valores, preconceitos etc que eu trazia da minha cultura, tudo embutido na minha mala cultural.

Pois bem. Uma das historinhas de que ainda me recordo bem foi em Heidelberg, numa semana em que eu tive vontade de ir à sauna, mas não estava a fim de ficar pelada entre outros pelados. Ok, pensei, vou ver aqui no jornal os dias e horários da sauna esta semana (havia dias somente ara homens, somente para mulheres, mista, familiar). Escolhi o dia da sauna familiar, pois na minha (pequena) cabeça (portadora de um cérebro ainda em processo de abertura e dilatação cultural, digamos assim), as famílias certamente não ficariam todas nuas perante outras tantas famílias peladas.

Ah, quanta ingenuidade, ou melhor, que pequenez! Por que é que não ficariam todos nus, como se fossem todos uma só família?

Enfim, lá fui eu DE MAIÔ à sauna no dia das familias. SÓ EU vestida, todos os outros obviamente nus, pelados, do jeitinho que vieram ao mundo. Homens, mulheres, adolescentes, crianças, idosos … e eu ali, me sentindo um peixe fora d’água … umas pessoas me olhando e talvez pensando: “Por que que essa moça tá vestida aqui na sauna?”.

Nada como o tempo e as experiências pra fazerem a gente crescer. Mas, enquanto você, leitor, não vai pra Alemanha ter as suas próprias experiências, dá uma lida no texto do link. É beeeem legal pra você ter uma ideia de como os alemães vêem a nudez. E, pode crer, é um jeito muito bacana que eles têm!

PS: Esse assunto da nudez vai surgir ainda em outras historinhas minhas … aguarde =D

sauna in deutschland

http://www.dw.com/pt/onde-ficar-pelado-em-p%C3%BAblico-na-alemanha/a-19172333

Kein Mut

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Gente, vocês vão ter que me perdoar, mas era impossível tomar banho todo dia na república em que eu morava usando aquelas muletas, morando no terceiro andar (sem elevador) de uma”Fachhaus” antiquíssima, com escadas de madeira do século XII (por aí), (madeira forte, com certeza! Nunca vou esquecer o ruído do rangido quando se pisava nela), degraus assimétricos … e, lembre-se de que no nosso andar não havia banheiro, só toilette! Tínhamos que subir para a república do quarto andar para termos acesso a um chuveiro movido a moedas de marcos alemães. Numa cabine minúscula. E quando as moradoras deixavam, coisa que não acontecia sempre. Complicado, estão percebendo? A situação não era fácil não!

E mais: se eu não tivesse uns 3 amigos pra ficarem comigo enquanto eu subia e descia as escadas até a república de cima, nada feito! Nem morta que eu arriscava “muletar” por aqueles degraus sozinha! Ich hatte gar keinen Mut!

Antes do acidente era bem menos complexo arrumar uma ducha. Eu pedia para os amigos e ia na casa deles me banhar. Ficar pedindo pra tomar banho na casa dos outros é bem esquisito … mas a gente se acostuma, fazer o quê.

Porém naquele momento, super limitada (praticamente presa) pelas muletas, não dava mesmo para descer aquelas escadas e ir até a casa de alguém.

Mas eis que um dia, depois de muitos e muitos dias de neblina e frio gelado, saiu o sol! Ah, quando o sol aparecia não tinha quem resistisse a ele! Todo mundo saía pra rua. E eu também saí naquele dia ensolarado e frio de fevereiro de 1988 para passear de muletas, pelo menos um pouco, pelo Marktplatz de Tübingen …  as mãos sem luvas, geladas, pra me sentir mais segura quando me apoiava nas muletas …

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Überlegungen

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Já faz tanto tempo que voltei da Alemanha, da temporada de seis anos que vivi lá … e ainda hoje paro para pensar em algum momento, algum evento, qualquer coisa que tenha ocorrido nessa época. Foi um períoco tão rico, que parece causar, eternamente, reflexões de todo tipo.

Desse modo, parei algum dia aí, aliás, alguma lembrança me parou dia desses no meio da correria dos pensamentos diários. Desta vez me veio a recordação daqueles muitos brasileiros que conheci em Tübingen, e posteriormente, em Heidelberg.

Voltei no tempo, naquele tempo em que começar uma amizade era meio que automático quando se era apresentado a um conterrâneo. Um alívio encontrar alguém da sua terra! Um falante nativo de português (português do Brasil)!

Muitos eram os motivos que nos levavam a fazer amigos rapidamente entre os brasileiros, não só o motivo de poder ouvir a língua materna sem sotaque: a sensação de insegurança, a solidão, a carência, a falta de amigos e da família … tudo nos levava a buscar contato com os brasileiros.

Mas o que percebi depois de alguns anos lá, e que me voltou à mente por estes dias, em virtude de comentários na família, é que muito provavelmente eu não teria conhecido nenhum desses brasileiros no Brasil. E se tivesse, não teria tido nenhum tipo de relacionamento com eles por conta de incompatibilidade mesmo.

E a partir daí a gente pode continuar as reflexões e expandi-las para tantos outros contextos: no trabalho, na faculdade, no bairro … você já parou pra pensar nisso? Nas pessoas com as quais se relaciona mas não se relacionaria se o contexto fosse outro?

überlegen