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Kein Mut

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Gente, vocês vão ter que me perdoar, mas era impossível tomar banho todo dia na república em que eu morava usando aquelas muletas, morando no terceiro andar (sem elevador) de uma”Fachhaus” antiquíssima, com escadas de madeira do século XII (por aí), (madeira forte, com certeza! Nunca vou esquecer o ruído do rangido quando se pisava nela), degraus assimétricos … e, lembre-se de que no nosso andar não havia banheiro, só toilette! Tínhamos que subir para a república do quarto andar para termos acesso a um chuveiro movido a moedas de marcos alemães. Numa cabine minúscula. E quando as moradoras deixavam, coisa que não acontecia sempre. Complicado, estão percebendo? A situação não era fácil não!

E mais: se eu não tivesse uns 3 amigos pra ficarem comigo enquanto eu subia e descia as escadas até a república de cima, nada feito! Nem morta que eu arriscava “muletar” por aqueles degraus sozinha! Ich hatte gar keinen Mut!

Antes do acidente era bem menos complexo arrumar uma ducha. Eu pedia para os amigos e ia na casa deles me banhar. Ficar pedindo pra tomar banho na casa dos outros é bem esquisito … mas a gente se acostuma, fazer o quê.

Porém naquele momento, super limitada (praticamente presa) pelas muletas, não dava mesmo para descer aquelas escadas e ir até a casa de alguém.

Mas eis que um dia, depois de muitos e muitos dias de neblina e frio gelado, saiu o sol! Ah, quando o sol aparecia não tinha quem resistisse a ele! Todo mundo saía pra rua. E eu também saí naquele dia ensolarado e frio de fevereiro de 1988 para passear de muletas, pelo menos um pouco, pelo Marktplatz de Tübingen …  as mãos sem luvas, geladas, pra me sentir mais segura quando me apoiava nas muletas …

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Am nächsten Tag …

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Dia seguinte lá estava eu no Pronto Socorro, tentando andar com uma muleta só, tentando explicar o que tinha acontecido com a outra no dia anterior.

Eu estava tão nervosa e apavorada com a ideia de ter de pagar a muleta, que tremia! Imaginem a cena: um pé/uma perna engessada até o joelho, uma muleta, tremendo, treinando a fala pra não errar nem esquecer de nada etc.

Mas eis que tudo deu certo! Depois de tanta tensão a atendente simplesmente me mostrou uma sala onde havia outras muletas, e me disse para pegar outra e … nada mais!

Se eu disser que saí correndo e pulando de alegria vocês não vão acreditar, né? Mas foi um dos dias em que me senti mais leve na vida. Tirei um peso enorme das costas! Que experiência!

Krücken

Die Krücken

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Superada a cirurgia, e com muita vontade e coragem pra sair de casa, eis que resolvo dar um passeio de muletas pela cidade. Ah, que maravilha sair do meu quarto! Dia geladinho, mas lindo. Fomos minha irmã (que estava passando uns meses na Alemanha) e eu passear pelas ruas de Tübingen. Com muita paciência da parte dela, pois eu andava beeeem devagar com as muletas, fomos do Marktplatz, onde eu morava, até a Neckarbrücke, um dos lugares mais bonitos da cidade, cartão postal mesmo. Não era longe, mas descida (portanto, uma subida me esperava na volta, certo?).

Chegamos na ponte e eu me recostei na grade para descansar um pouco. Apoiei as muletas na grade também, sem pensar no tamanho dos vãos. Então, adivinhem o que aconteceu? Uma das delas escorregou pelo vão da grade e caiu no Neckar!

Desespero – perigo – silêncio – insegurança – dúvida – medo … gente, e agora? Eu olhava para a muleta no rio, indo embora com a correnteza, e eu ali, sem poder fazer nada … ai mein Gott, que vontade de pular lá, empurrar a muleta pra beira do rio! E agora?

Entre o choque e o desespero resolvemos ligar para os bombeiros. Mas em primeiro lugar, era preciso chegar a uma “Telefonzelle” (naquela época não existia celular!) numa perna só, com uma só muleta, apoiada na minha irmã. Acho que nunca mais consegui andar daquele jeito tão rápido.

Achada a cabine, liguei e expliquei a situação (que a pessoa do outro lado do aparelho parecia achar surreal – e até era mesmo haha), ao que me deram um “Tut uns leid, aber wir können Ihnen leider nicht helfen” e desliguei. Fiquei desolada.

Panik: e se eu tivesse que pagar pela muleta? Oh nein, agora sim eu estaria perdida!

grades Neckarbrücke

PS: Foi exatamente no lugar da foto que minha muleta “se jogou” no Neckar!

Zuhause

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Com dúvidas ou sem dúvidas, com dilemas ou não, era hora de deixar o hospital e voltar pra casa. Um amigo me buscou de carro, e lá fui eu com a perna esquerda engessada até o joelho e dois acessórios novos, minhas duas muletas. Muito desajeitada fui até o carro, como um bebê, aprendendo a andar com aqueles suportes.

Chegando em casa …. aaahhh … 3 andares pra subir … que desânimo … meu amigo me carregou (assim como aquele mega simpático motorista de táxi do post “Der Taxifahrer”) até onde deu. A partir daí … era comigo e com as “minhas novas companheiras”. Baita sacrifício subir aqueles degraus irregulares de madeira de muleta, mas consegui. Cheguei exausta no meu quarto, mas senti aquele alívio de estar no meu canto novamente.

Dali pra frente, era contar com a ajuda de amigos/amigas e das minhas colegas de república. E ter muita, muita paciência mesmo, porque eu passaria 6 semanas bastante dependente deles pra fazer tudo …

Krücken