Die Narbe

Padrão

Num dos murais que vi na Universidade de Tübingen, quando visitei a cidade pela primeira vez, procurando pesquisar se poderia me mudar para lá, constava o nome de uma brasileira que dizia poder ajudar os brasileiros que necessitavam de visto, que queriam estudar na faculdade, etc. Anotei o telefone, liguei, combinamos de eu ir até ela (que na época morava em Heidelberg, outra cidade em que eu viria a morar alguns anos depois) para conseguir informações de como continuar na Alemanha, regularizando a minha situação.

Porém, acabei tendo uma experiência bem desagradável com ela. Qual não foi a minha decepção num certo dia em que tivemos que pegar o bonde!  Eu nunca tinha andado em um, então perguntei como se comprava a passagem, quanto custava e tal. Como estávamos num grupo, ela me explicou que uma pessoa do grupo tinha um ticket que valia para todos. Ok, acreditei, né?

Estávamos sentadas, e duas pessoas vem em nossa direção dizendo “Fahrscheinkontrolle!”. Até esse momento, eu estava tranquila. Quando um dos fiscais me pediu a passagem, eu lhe disse que ela estava com a minha amiga e me virei para ela. Porém, houve uma movimentação e uma conversa pouco compreensível para mim. Minha “amiga” conversava, de repente, em inglês com os fiscais, dizendo que não me conhecia!

Panik, Enttäuschung, Unsicherheit, esses foram alguns dos meus sentimentos naquele momento. Comecei a discutir com ela em português, que insistia em continuar no inglês. Sem passaporte, sem passagem, lá fui eu para a delegacia de Heidelberg! Aliás, a “amiga” também foi levada.

Fomos interrogadas em salas separadas, e isso durou quase um dia inteiro. Chegamos de manhã e saímos no final da tarde. Não passei o tempo todo respondendo perguntas. Fiquei também esperando que checassem o meu passaporte, que estava em Owingen. Eles tinham acionado a polícia de lá, que foi até a minha casa, pegou meu passaporte, e verificou que eu estava sem visto.

Hum, sem visto … levei mais uma bronca (a terceira! A primeira foi por estar sem passagem, a segunda por estar sem passaporte). E dá-lhe mais perguntas!

Bom, depois de devidamente “fichada”, fui liberada com a condição de regularizar a minha situação no país. Para isso, eu deveria procurar a prefeitura de Owingen (departamento de estrangeiros), e me informar dos procedimentos eu deveria iniciar. Paguei a multa por estar sem a passagem e, no dia seguinte, depois de voltar imediatamente para casa, muito assustada com o ocorrido, me dirigi à prefeitura para iniciar o processo de requisição de visto.

Mas, o que tem a ver o título da postagem com essa história toda? Ah, vocês já foram interrogados? Espero que não! Me foram feitas perguntas de todos os tipos, e uma delas, não esqueço, se referia a eu ter cicatrizes no corpo. “Haben Sie Narben?”. “Ahnnnn? Narben? Was ist das?”. E com toda a paciência que Deus lhe deu, o policial me explicou o que era uma “Narbe”. Além dessa palavra, claro que ele teve que me explicar várias outras, que eu não conhecia. Mas essa ficou marcada na minha memória.

Aliás, tenho que dizer que todos os policiais foram extremamente atenciosos, pacientes, calmos, educados, simpáticos. E como eram lindooooos! Bom, mas isso já é um outro assunto …

Das war echt ein richtiges Erlebnis!

PS: Este post também poderia ser intitulado “Die Schwarzfahrerin” (embora eu não tenha feito isso de propósito!)!

PS: Na foto, dois fiscais  à paisana …

kontrolleure 2

Anúncios

Sobre frausantana

Professora de alemão há 20 anos, apaixonada pela língua alemã, pelo país, pelo povo ... pelos pães, pelos bolos ... Formada em Letras pela UNICAMP, licenciada em Alemão pela UFPR, estudou língua e literatura alemãs na Universidade de Tübingen e Tradução na Universidade de Heidelberg. GDS pelo Instituto Goethe.

»

  1. Que suspenso! Imagino como vocè estava assustada… E daí – voce tem uma narbe? Vocé teve muita coragem para ficar na Alemanha sem visto, sen perspectiva concreta. Gracas à isso tive a felicidade de te conhecer quando vocè deu aulas de portugues na Universidade de Tübingen!
    Boas lembrancas, Matthias

    Curtir

  2. Aha, eis a história que vc comentou por e-mail :}
    Mas nossa, que saia justa, hein?
    Passei por uma dessas exatamente ontem: entrei no ônibus e lembrei que tinha esquecido o dinheiro! Imagina a vergonha… Mas aí, o motorista, que é um senhor bem querido, pagou a passagem pra mim e depois eu pedi dinheiro emprestado para uma colega da faculdade para pagá-lo e poder voltar para casa…
    Ah, wie man sagt “vergonha” in Deutsch?

    Curtir

    • Vergonha se diz “Schande” em alemão, mas é uma palavra um tanto quanto pesada pra esse contexto. Eu diria que foi “peinlich”. Que bom que ainda existem pessoas legais que aparecem nessas horas, né? Eu também tive uma experiência com uma pessoa bacana, parecida com a sua, quando viajei uma vez pra Londres … aguarde!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s